Lendo a entrevista que o médico e escritor Drauzio Varela deu para a revista Marie Claire, encontrei a definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação: "uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil"
Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom e merece ser desenvolvido.
Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça.
Todos fadados à frustração.
Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo. Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.
Perdi o nome do autor do texto...
sábado, 6 de maio de 2006
Aveia e mel
de repente
não mais que de repente
o tempo parou
nada mais importava
na fração de segundo
do seu abraço
um aperto charmoso
Macio e suave
de um colo gostoso
gentil tocar dos corpos
sentir seu coração
ouvir sua razão
entender você
e querer, apesar de proibido
sermos um
mulher de vidas
amor de anos
surgiu do nada
de repente
não mais que de repente
o tempo vai
não mais que de repente
o tempo parou
nada mais importava
na fração de segundo
do seu abraço
um aperto charmoso
Macio e suave
de um colo gostoso
gentil tocar dos corpos
sentir seu coração
ouvir sua razão
entender você
e querer, apesar de proibido
sermos um
mulher de vidas
amor de anos
surgiu do nada
de repente
não mais que de repente
o tempo vai
Leminsk
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que miha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar essa adolescência
Né?
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que miha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar essa adolescência
Né?
segunda-feira, 24 de abril de 2006
Eduardo Galeano 2
Caras e caretas
Eduardo Galeano Para o dia do descobrimento da América (12 de outubro)
Tradução Imediata
Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492? Ou antes dele ela foi descoberta pelos vikings? E antes dos vikings? E os que ali viviam? Não existiam?
Conta a história oficial que Vasco Nunhez de Balboa foi o primeiro homem que viu, a partir de um pico no Panamá, os dois oceanos. E os que ali viviam? Eram cegos?
Quem foi que deu, pela primeira vez, um nome ao milho e à batata e ao tomate e ao chocolate, e às montanhas e aos rios da América? Fernando Cortês, Francisco Pizarro? E os que ali viviam? Eram mudos?
Disseram-nos, e nos continuam dizendo que os peregrinos do Mayflower foram povoar a América. A América estava vazia? Como Colombo não entendia o que lhe diziam, achou que não sabiam falar. Como andavam nus, eram mansos e davam tudo em troca de nada, achou que não eram pessoas dotadas de razão. E como estava seguro de que havia encontrado o Oriente pela porta dos fundos, achou que eram índios da Índia.
Depois, durante sua segunda viagem, o almirante promulgou um ato estabelecendo que Cuba era parte da Ásia. O documento de 14 de junho de 1494 afirmava como evidência que os tripulantes de suas três naves assim o reconheciam; e que quem dissesse o contrário receberia cem açoitadas, e teria que pagar uma multa de dez mil maravedies, e teria a língua cortada.
O tabelião, Hernán Pérez de Luna, deu fé.
E ao pé da página, assinaram os marinheiros que sabiam assinar.
Os conquistadores exigiam que a América fosse o que não era. Não estavam vendo o que viam, mas o que queriam ver: a fonte da juventude, a cidade do ouro, o reino das esmeraldas, o país da canela. E retrataram os americanos assim como antes tinham imaginado os pagãos do Oriente.
Cristóvão Colombo viu nas costas de Cuba sereias com caras de homem e penas de galinha, e supôs que não longe dali, os homens e as mulheres tinham rabo.
Na Guiana, segundo sir Walter Raleigh, havia gente com os olhos nos ombros e a boca no peito.
Na Venezuela, segundo o frei Pedro Simão, havia índios de orelhas tão grandes que as arrastavam pelo solo.
No rio Amazonas, segundo Cristóvão de Acunha, os nativos tinham os pés ao contrário, com os calcanhares para frente e os dedos para trás, e segundo Pedro Martin de Angleria, as mulheres se mutilavam um seio para o melhor disparo de suas flechas.
Angleria, que escreveu a primeira história da América sem nunca ter estado lá, afirmou também que no Novo Mundo havia gente com rabo, como tinha descrito Colombo, e seus rabos eram tão grandes que só podiam sentar-se em assentos com buracos.
O Código Negro proibia a tortura dos escravos nas colônias francesas. Porém, não era para torturar, mas para educar, que os amos açoitavam seus negros, e quando fugiam lhes cortavam os tendões. Eram comoventes as leis das Índias, que protegiam os índios nas colônias espanholas. Porém, ainda mais comoventes eram o patíbulo e a forca cravados no centro de cada Praça Principal.
Muito convincente resultava a leitura do Requerimento, que nas vésperas do assalto a cada aldeia explicava aos índios que Deus tinha vindo ao mundo e que tinha deixado em seu lugar São Pedro, e que São Pedro tinha por sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre tinha feito a graça à rainha de Castilha de toda essa terra e que por isso deviam deixar aquele lugar ou pagar tributo em ouro e que, em caso de negativa ou demora, seria feita uma guerra contra eles, e eles seriam convertidos em escravos, assim como suas mulheres e filhos. Porém, este Requerimento de obediência era lido num monte, em plena noite, em língua castelhana e sem intérprete, na presença do tabelião e de nenhum índio, porque os índios dormiam, a algumas léguas de distância, e não tinham a menor idéia do que estava por vir.
Até não muito tempo, o 12 de outubro era o Dia da Raça.
Porém, por acaso existe semelhante coisa? O que é a raça, além de uma mentira útil para exprimir e exterminar o próximo? No ano de 1942, quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, a Cruz Vermelha desse país decidiu que o sangue negro não seria admitido em seus bancos de plasma. Assim se evitava que a mistura de raças, proibidas na cama, se fizesse por injeção. Alguém viu, alguma vez, algum sangue negro?
Depois, o Dia da Raça passou a ser o Dia do Encontro.
Será que as invasões coloniais são encontros? As de ontem, e as de hoje, encontros? Não deveríamos chamá-las de violações? Quem sabe o episódio mais revelador da história da América ocorreu no ano de 1563, no Chile. O fortim de Arauco estava sitiado pelos índios, sem água nem comida, porém o capitão Lorenzo Bernal negou-se a se render. Da paliçada, gritou:
–e Nós seremos cada vez mais!
–Com que mulheres? Perguntou o chefe índio.
–Com as suas. Nós lhes faremos filhos que serão os vossos patrões.
Os invasores chamaram de canibais aos antigos americanos, porém mais canibal era o Cerro Rico de Potosi, cujas bocas comiam a carde de índios para alimentar o desenvolvimento capitalista da Europa.
E os chamaram de idólatras, porque acreditavam que a natureza era sagrada e que somos irmãos de tudo o que tem pernas, patas, asas ou raizes. E os chamaram de selvagens. Nisso, pelo menos, não se equivocaram. Tão brutos eram os índios que ignoravam que deviam exigir visto, certificado de boa conduta e permissão de trabalho a Colombo, Cabral, Cortês, Alvarado, Pizarro e aos peregrinos do Mayflower.
Eduardo Galeano Para o dia do descobrimento da América (12 de outubro)
Tradução Imediata
Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492? Ou antes dele ela foi descoberta pelos vikings? E antes dos vikings? E os que ali viviam? Não existiam?
Conta a história oficial que Vasco Nunhez de Balboa foi o primeiro homem que viu, a partir de um pico no Panamá, os dois oceanos. E os que ali viviam? Eram cegos?
Quem foi que deu, pela primeira vez, um nome ao milho e à batata e ao tomate e ao chocolate, e às montanhas e aos rios da América? Fernando Cortês, Francisco Pizarro? E os que ali viviam? Eram mudos?
Disseram-nos, e nos continuam dizendo que os peregrinos do Mayflower foram povoar a América. A América estava vazia? Como Colombo não entendia o que lhe diziam, achou que não sabiam falar. Como andavam nus, eram mansos e davam tudo em troca de nada, achou que não eram pessoas dotadas de razão. E como estava seguro de que havia encontrado o Oriente pela porta dos fundos, achou que eram índios da Índia.
Depois, durante sua segunda viagem, o almirante promulgou um ato estabelecendo que Cuba era parte da Ásia. O documento de 14 de junho de 1494 afirmava como evidência que os tripulantes de suas três naves assim o reconheciam; e que quem dissesse o contrário receberia cem açoitadas, e teria que pagar uma multa de dez mil maravedies, e teria a língua cortada.
O tabelião, Hernán Pérez de Luna, deu fé.
E ao pé da página, assinaram os marinheiros que sabiam assinar.
Os conquistadores exigiam que a América fosse o que não era. Não estavam vendo o que viam, mas o que queriam ver: a fonte da juventude, a cidade do ouro, o reino das esmeraldas, o país da canela. E retrataram os americanos assim como antes tinham imaginado os pagãos do Oriente.
Cristóvão Colombo viu nas costas de Cuba sereias com caras de homem e penas de galinha, e supôs que não longe dali, os homens e as mulheres tinham rabo.
Na Guiana, segundo sir Walter Raleigh, havia gente com os olhos nos ombros e a boca no peito.
Na Venezuela, segundo o frei Pedro Simão, havia índios de orelhas tão grandes que as arrastavam pelo solo.
No rio Amazonas, segundo Cristóvão de Acunha, os nativos tinham os pés ao contrário, com os calcanhares para frente e os dedos para trás, e segundo Pedro Martin de Angleria, as mulheres se mutilavam um seio para o melhor disparo de suas flechas.
Angleria, que escreveu a primeira história da América sem nunca ter estado lá, afirmou também que no Novo Mundo havia gente com rabo, como tinha descrito Colombo, e seus rabos eram tão grandes que só podiam sentar-se em assentos com buracos.
O Código Negro proibia a tortura dos escravos nas colônias francesas. Porém, não era para torturar, mas para educar, que os amos açoitavam seus negros, e quando fugiam lhes cortavam os tendões. Eram comoventes as leis das Índias, que protegiam os índios nas colônias espanholas. Porém, ainda mais comoventes eram o patíbulo e a forca cravados no centro de cada Praça Principal.
Muito convincente resultava a leitura do Requerimento, que nas vésperas do assalto a cada aldeia explicava aos índios que Deus tinha vindo ao mundo e que tinha deixado em seu lugar São Pedro, e que São Pedro tinha por sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre tinha feito a graça à rainha de Castilha de toda essa terra e que por isso deviam deixar aquele lugar ou pagar tributo em ouro e que, em caso de negativa ou demora, seria feita uma guerra contra eles, e eles seriam convertidos em escravos, assim como suas mulheres e filhos. Porém, este Requerimento de obediência era lido num monte, em plena noite, em língua castelhana e sem intérprete, na presença do tabelião e de nenhum índio, porque os índios dormiam, a algumas léguas de distância, e não tinham a menor idéia do que estava por vir.
Até não muito tempo, o 12 de outubro era o Dia da Raça.
Porém, por acaso existe semelhante coisa? O que é a raça, além de uma mentira útil para exprimir e exterminar o próximo? No ano de 1942, quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, a Cruz Vermelha desse país decidiu que o sangue negro não seria admitido em seus bancos de plasma. Assim se evitava que a mistura de raças, proibidas na cama, se fizesse por injeção. Alguém viu, alguma vez, algum sangue negro?
Depois, o Dia da Raça passou a ser o Dia do Encontro.
Será que as invasões coloniais são encontros? As de ontem, e as de hoje, encontros? Não deveríamos chamá-las de violações? Quem sabe o episódio mais revelador da história da América ocorreu no ano de 1563, no Chile. O fortim de Arauco estava sitiado pelos índios, sem água nem comida, porém o capitão Lorenzo Bernal negou-se a se render. Da paliçada, gritou:
–e Nós seremos cada vez mais!
–Com que mulheres? Perguntou o chefe índio.
–Com as suas. Nós lhes faremos filhos que serão os vossos patrões.
Os invasores chamaram de canibais aos antigos americanos, porém mais canibal era o Cerro Rico de Potosi, cujas bocas comiam a carde de índios para alimentar o desenvolvimento capitalista da Europa.
E os chamaram de idólatras, porque acreditavam que a natureza era sagrada e que somos irmãos de tudo o que tem pernas, patas, asas ou raizes. E os chamaram de selvagens. Nisso, pelo menos, não se equivocaram. Tão brutos eram os índios que ignoravam que deviam exigir visto, certificado de boa conduta e permissão de trabalho a Colombo, Cabral, Cortês, Alvarado, Pizarro e aos peregrinos do Mayflower.
Eduardo Galeano
"No manicômio global, entre um senhor que julga ser maomé e outro que acredita ser buffalo bill, entre o terrorrismo dos atentados e o terrorrismo da guerra, a violência está nos arruinando"
"O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa."
"A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportem bem, o sistema promete uma boa poltrona".
«Esta guerra será larga», ha anunciado el presidente del planeta. Mala noticia para los civiles que están muriendo y morirán, excelente noticia para los fabricantes de armas. No importa que las guerras sean eficaces. Lo que importa es que sean lucrativas. Desde el 11 de setiembre, las acciones de General Dynamics, Lockheed, Northrop Grumman, Raytheon y otras empresas de la industria bélica han subido en línea recta en Wall Street. La bolsa las ama.
Cuando el Demonio apareció, en forma de becaria, en el Salón Oval de la Casa Blanca, el presidente Bill Clinton no recurrió al anticuado método católico. En cambio, para espantar a Satanás Clinton ensayó unos bombardeos sobre Sudán y Afganistán, y después arrojó un huracán de misiles desde el cielo de Irak. De inmediato, las encuestas de opinión pública revelaron que el Diablo se batía en retirada: ocho de cada 10 estadunidenses apoyaron ese ritual de las armas, y de paso confirmaron que Dios estaba, como siempre, de su lado.
"O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa."
"A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportem bem, o sistema promete uma boa poltrona".
«Esta guerra será larga», ha anunciado el presidente del planeta. Mala noticia para los civiles que están muriendo y morirán, excelente noticia para los fabricantes de armas. No importa que las guerras sean eficaces. Lo que importa es que sean lucrativas. Desde el 11 de setiembre, las acciones de General Dynamics, Lockheed, Northrop Grumman, Raytheon y otras empresas de la industria bélica han subido en línea recta en Wall Street. La bolsa las ama.
Cuando el Demonio apareció, en forma de becaria, en el Salón Oval de la Casa Blanca, el presidente Bill Clinton no recurrió al anticuado método católico. En cambio, para espantar a Satanás Clinton ensayó unos bombardeos sobre Sudán y Afganistán, y después arrojó un huracán de misiles desde el cielo de Irak. De inmediato, las encuestas de opinión pública revelaron que el Diablo se batía en retirada: ocho de cada 10 estadunidenses apoyaron ese ritual de las armas, y de paso confirmaron que Dios estaba, como siempre, de su lado.
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